sábado, 7 de novembro de 2009

debruçada, rímel manchado

A mulher do cabeleireiro instalou cata-ventos
no cartaz com os preços do estabelecimento,
ninguém corta o cabelo com ela, faz as unhas
de si e de quem mais pagar pelo serviço, faz os pés
e chora no telefone público do lugar, tarde de quarta.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Se o aí fosse mais próximo
à altura dos meus dedos
sempre, se o aí fosse esta distância,
eu estaria apenas renomeando infinitudes:
braço; ombro e metragem,
negação de cotovelos, metáforas
de rio e outras abstrações até o punho.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Um post para Gilson Figueiredo

Não sei se já o leste, mas Daniel Faria foi um poeta português que morreu pouco antes de conseguir se ordenar padre, em um acidente doméstico, queda, tendo ao longo da vida sempre primado pela vida monástica, pelo silêncio da leitura e sobretudo pelo silêncio da escrita... Muso, certo? Seguem-se dois poemas dele:

Largo é o aberto abandonado
E o vazio é pata que sustenta
De leveza o ramo. O pássaro amanhece
E o seu canto não fere o seu bico.

*

Para que visses
Tão sinuosos como o interior dos búzios
E o dispersar assustado dos cardumes
Os olhos onde já não estão
Nem eles próprios nem outros
A florir.

*

sábado, 17 de outubro de 2009


Baravelli, Luís Paulo - Organização das borboletas, 1974

*

Como narrar uma borboleta num poema
depois da borboleta da borboleta do Alberto Caeiro
e sob esta acusação ferrenha de que poesia é algo brega,
é difícil. As cores daquela borboleta em outro inseto
ou focar o que me ocorreu não nela mas numa moral
ou noutra coisa que o valha, estratégias que me frustrariam.
O que faço da minha vida quando a literatura lhe nega encenação?
O contexto socio-psico-literário, ao gosto dos pedagogos, me nega
narrar em versos que sejam poemas a borboleta, mas à praia onde a vi
ainda resta todo o mar quebrando em cada onda verso antigo bem lido.
O que falta portanto é um Camões às borboletas, meu amor,
será você, será você. Um gigantesco móbile de panapanás.

, lrp.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A consciência que os cães têm dos umbrais
me espanta e parece estar ausente nas baratas;
talvez erro, o cão é que é cerimonioso enquanto
a barata não distingue porta trancada de enterro.

Este cão que me espia da soleira da cozinha
compõe meu almoço agradável, cotidiano.

Quando a barata que chamamos de bile finalmente
ultrapassar minha boca ignorada e arreganhada, morte.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

I.

se um gigante travestido
usasse um colar de crânios prateados
numa tarde universal de sol como esta
daria a Monteiro Lobato que vejo agora.

II.

É domingo de tarde ensolarada em Mongaguá
e mais uma vez penso aqui eu duro mais que ferro
e a ferrugem que aproxima o metal das plantas
não alcança esta deliciosa moleza humana
que fede suor mesmo quando vegeta.

III.

Sim, eu li Gullar antes de sair para caminhar.
Eu abandonaria minha vida por mais
momentos como este, esqueci o carregador do mp3-player,
economizo na Lizzy Mercier Descloux, cantarolo Caetano.

, lrp - Ontem, 16h26