sábado, 19 de dezembro de 2009

Virá um dia em que um olhar tranquilo conferirá ordem e unidade ao laborioso caos que começa amanhã.

, Cesare Pavese.

sábado, 28 de novembro de 2009

Góngora na balada gay

As colunas acabam e continuam no chão
coxas de mulheres de biquíni, na verdade,
as colunas, que são troncos esguios fazendo topless na penumbra,
são apenas colunas: o mistério vem das sombras,
não concordo, e procuro quais holofotes fizeram pélvis,
pernas, triângulo isósceles, descalça, seios oculares.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Agora, os meus mais belos versos:

Me entupir de veneno
e pular de madrugada
na usina de Traição.

domingo, 15 de novembro de 2009

Que a urgência fira a paisagem
com suas cores de tarde, é tarde de tarde
e sua demanda é lânguida, é isso que me irrita,
a manhã infinda do desejo contra o bojo da noite,
porque sua beleza tem uma urgência que a placidez
da tarde não contempla sua verdade urgente não berra
por beleza e isso é tudo que o ocaso lhe oferece, meu deus.
Tudo que peço é uma ferida em seu nome -- Amém.

, lrp - 14/11/09 - 21h30.

sábado, 7 de novembro de 2009

debruçada, rímel manchado

A mulher do cabeleireiro instalou cata-ventos
no cartaz com os preços do estabelecimento,
ninguém corta o cabelo com ela, faz as unhas
de si e de quem mais pagar pelo serviço, faz os pés
e chora no telefone público do lugar, tarde de quarta.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Se o aí fosse mais próximo
à altura dos meus dedos
sempre, se o aí fosse esta distância,
eu estaria apenas renomeando infinitudes:
braço; ombro e metragem,
negação de cotovelos, metáforas
de rio e outras abstrações até o punho.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Um post para Gilson Figueiredo

Não sei se já o leste, mas Daniel Faria foi um poeta português que morreu pouco antes de conseguir se ordenar padre, em um acidente doméstico, queda, tendo ao longo da vida sempre primado pela vida monástica, pelo silêncio da leitura e sobretudo pelo silêncio da escrita... Muso, certo? Seguem-se dois poemas dele:

Largo é o aberto abandonado
E o vazio é pata que sustenta
De leveza o ramo. O pássaro amanhece
E o seu canto não fere o seu bico.

*

Para que visses
Tão sinuosos como o interior dos búzios
E o dispersar assustado dos cardumes
Os olhos onde já não estão
Nem eles próprios nem outros
A florir.

*